Bernard Manin: Democracia de Auditório e um Breve Comentário Político
Na
teoria de Manin democracia de auditório significa uma mudança de
paradigma, que ocorreu
no final do século XX e se consagrou
no século XXI, onde, devido a ampliação da influência da mídia e
do marketing político, as figuras políticas, personalidades
midiáticas,
ganharam
e ganham
mais importância do que os partidos políticos e do que suas
ideologias. Ideologias
estas que enfrentaram
uma pesada crise dentro dos programas partidários que optaram por
ampliar seu “público” alvo em detrimento da coesão do ideário,
é a erosão da fidelidade partidária.
O
eleitor passa a ser dividido em públicos alvos que devem ser
conquistados com campanhas dedicas (exclusivas) que costumam envolver
grandes temas como: previdência, corrupção, desemprego, segurança,
etc, e a seguir a volatilidade de seus públicos. O Político, os
temas da moda, o líder, o caráter populista são o que passam a
importar agora dentro da disputa eleitoral. As principais causa desse
fenômeno, hoje generalizado nas grandes democracias, podem ser
atribuídas, em diferentes graus a mudanças econômicas, ao
papel da comunicação de massa e ao
aumento do nível educacional geral da população.
Um
bom exemplo da teoria da Manin na prática é o caso espanhol: O PP e
o PSOE, tradicionais partidos que dominaram a política espanhola
(que é uma Monarquia Parlamentarista) durante muitas décadas. Com o
abandono da sua dicotomia no paradigma direita/esquerda, voltaram-se
para uma posição centrista a fim de conquistar uma maior parte do
eleitorado, que é cada vez menos fidelizado ideologicamente. Seus
lideres partidários, Mariano Rajoy (PP) e Pedro Sánchez (PSOE),
tiveram cada vez mais exibição midiática, e seus programas
genéricos e abrangente demonstram a teoria na prática. Tal erosão
partidária abriu portas para partidos minoritários como o
“Podemos”, que se identifica com a extrema esquerda e até pouco
tempo não fazia acordos com o PSOE, também de esquerda, e para que
os partidos separatistas bascos e catalães ganhassem espaço na
Câmara Baixa. O Primeiro-Ministro (Presidente de Governo) Rajoy
governou em uma atípica situação de não maioria, o que levou a
sua moção de desconfiança e ao novo governo de coalizão liderado
por Sánchez e com apoio de diversos partidos minoritários, em uma
união com certo grau de fragilidade.
Na
frança o “La
République En Marche”(LaREM),
partido fundado em 2016 por Emmanuel Macron, hoje presidente da
frança, é um partido social liberal, pró-europeu com alta acepção
de membros de outros partidos, que tenta modernizar e “limpar” a
política francesa da corrupção, ou seja, uma posição altamente
centrista sem uma clara definição ideológica nos moldes clássicos
da dicotomia esquerda-direita. Tal foi o sucesso da iniciativa, que
exigia de seus candidatos apenas: probidade, eficácia e pluralidade
política, que o candidato e fundador foi eleito contra candidatos de
partidos tradicionais como Marine LePen (Frente Nacionalista) e
Francois Fillon (Republicano). A identificação passa, como mais uma
vez representado por este exemplo, para quem tenta resolver as pautas
mais urgentes e que se personifica, ganhando o máximo do público,
não mais interessado nas utopias políticas.
O
Movimento 5 Estrelas na Itália nasceu como uma resposta ao
tradicionalismo político (ele nem mesmo se identifica como um
partido) e a corrupção que vem assolando o país. O movimento é de
difícil definição mas suas principais pautas são: democracia
direta, anti-imigração, e algumas políticas tradicionais de
esquerda (renda mínima e ambientalismo). Ele varia entre o
populismo, o antisistemismo e o sentimento de rejeição a União
Europeia, mas sua pauta é, na verdade, flexibilidade para atender ao
maior número de eleitores. O movimento ganhou notoriedade em vista
dos escândalos políticos, sua ideia é se aproximar do eleitor
comum que procura soluções práticas e não mais respostas
utópicas, não dando margem a organizações setorizadas por conta
de uma ideia democrática direta. Sua postura “outcaster”
conquistou a Itália, ele vem sendo o partido mais bem votado desde
2016.
A
teoria de Manin é perfeitamente aplicável no Brasil, país cujo a
fidelidade partidária já não era tão forte e a tendência ao
populismo e a
personalização
da política, como explicada por Sérgio Buarque de Holanda em seu
icônico Raízes do Brasil, é forte. Essas tendências foram
elevadas a outros patamares. O presidencialismo estabelecido pela
Constituição Federal de 1988 opera, quase sempre, com um presidente
sem maioria no legislativo que ganha governabilidade através de
coalizações que desconsideram a ideologia do partido, PSDB, PMDB,
PT, partidos que variam do centro a
esquerda se coadunam em vista de conquista de cargos e poderes, tal
movimento, mantido por poderosos esquemas de corrupção, afrouxaram
a já frágeis ilusões partidárias e políticas do eleitorado, como
demonstrado nos movimentos de 2013. Atualmente os partidos
tradicionais encontram-se em crise, o povo não se reconhece com
nenhum, e candidatos (independente do partido) é que disputam a
atenção do público, e os já frágeis programas eleitorais se
esticam mais para abranger os eleitores desesperados pelo básico:
segurança, educação e respeito ao patrimônio público.
O
presidente eleito Jair Messias Bolsonaro (PSL) é uma demonstração
perfeita da teoria. Seus discursos simples, diretos e sem muitas
“firulas” conquistaram o público e puseram em movimento uma
poderosa militância autêntica,
com forte presença digital e
grande capacidade de articulação. Suas pautas, muitas vezes
tachadas de “conservadoras” na verdade não representam nenhuma
ideologia bem definida, são temas genéricos mas de grande impacto e
interesse social. A cola que parece unir os militares, liberais,
conservadores e toda a sorte de técnicos que integram seu recente
governo de transição é a tentativa de responder de maneira
concreta problemas concretos, e uma pitada de anticomunismo, sem
necessariamente se alinhar com uma “direita neofacista”,
neologismo que nada indica e só confunde a análise.
Seu partido, PSL, um ex-nanico criado em 1994, através da força do candidato passou a ser a segunda maior bancada na Câmara, com 52 deputados, elegendo ainda 4 senadores federais. O partido em sua página oficial define-se a partir de 8 pontos: liberalismo econômico, iniciativa privada, federalismo, governo limitado, Estado de Direito e Império da Lei, democracia representativa (transparente e plural),conservadorismo, qualidade de vida com inclusão social. Historicamente alinhado com o social-liberalismo passou a abarcar as pautas do "conservadorismo liberal" do presidente. Muda assim seu paradigma em virtude das demandas percebidas na sociedade e em vista do forte nome que disputou a corrida eleitoral, o auto grau de plasticidade é uma nota dos partidos dentro da perspectiva da democracia de auditório.
Muitos aspectos da política e do papel das ideologias no Brasil ainda são incertos, mas esta breve análise “pretende-se”, entre muitas aspas, a tentar sobre o prisma de Mainin, apreciar situações de facto.
Seu partido, PSL, um ex-nanico criado em 1994, através da força do candidato passou a ser a segunda maior bancada na Câmara, com 52 deputados, elegendo ainda 4 senadores federais. O partido em sua página oficial define-se a partir de 8 pontos: liberalismo econômico, iniciativa privada, federalismo, governo limitado, Estado de Direito e Império da Lei, democracia representativa (transparente e plural),conservadorismo, qualidade de vida com inclusão social. Historicamente alinhado com o social-liberalismo passou a abarcar as pautas do "conservadorismo liberal" do presidente. Muda assim seu paradigma em virtude das demandas percebidas na sociedade e em vista do forte nome que disputou a corrida eleitoral, o auto grau de plasticidade é uma nota dos partidos dentro da perspectiva da democracia de auditório.
Muitos aspectos da política e do papel das ideologias no Brasil ainda são incertos, mas esta breve análise “pretende-se”, entre muitas aspas, a tentar sobre o prisma de Mainin, apreciar situações de facto.
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